quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

'2021 vai exigir muito diálogo', afirma Álvaro de Souza

 Segundo chairman do Santander, abertura para diversidade e multilateralismo é essencial para se enfrentar desafios ambientais, econômicos e sociais

É inegável a complexidade do que se desenha para 2021, mas é possível fazer um bom mapeamento do cenário com base em três pilares: ambiente, economia e desigualdade, todos com aspectos interconectados. A questão que se coloca diante da civilização num ano em que possivelmente as vacinas garantirão uma certa folga nas restrições de 2020 envolve preservação de capital natural, distribuição de capital financeiro e melhora da qualidade do capital humano. Será preciso encontrar maneiras de direcionar o excesso de liquidez global para a inclusão de 1,8 bilhão de pessoas no mercado consumidor nos anos seguintes e de fazer crescer a economia sem mais impactos deletérios sobre o ambiente.
Essas reflexões são do presidente do conselho de administração do Santander Brasil, Álvaro de Souza, convidado da mais recente edição do “Mesa Ao Vivo”, espaço para debates no canal do YouTube da Mesa Corporate Governance. O evento online é mensal, sempre na primeira quinta-feira de cada mês, e aborda assuntos relevantes para o mundo corporativo e para a governança corporativa. Da conversa com Souza participaram Luiz Marcatti, sócio e presidente da consultoria, e Herbert Steinberg, sócio e presidente do conselho da Mesa Corporate Governance. O encontro online está disponível no canal da MESA no Youtube https://www.youtube.com/channel/UCnl3hUvNxo_lqxSJxo9L1Ow.
“Ambiente, economia e desigualdade estão conectados numa dinâmica circular, em que ações em cada um dos pontos pode ter reflexos em outro”, afirmou Souza, iniciando sua apresentação com um panorama das questões ambientais — o executivo tem larga experiência nessa área, tendo passado pela WWF. Segundo ele, não se trata de salvar o planeta: a questão é salvar a humanidade. “Já sabemos que usamos mais recursos renováveis do que a capacidade de regeneração da Terra e isso é um problema sério, ainda mais considerando que até 2050 a população deve crescer de 7 para 9 bilhões de pessoas”, destacou. Acerca desse imenso contingente populacional, Luiz Marcatti salientou que um dos maiores desafios sociais do futuro é a empregabilidade frente à tecnologia.
No caso do ambiente, Souza observou que existem dois dilemas reais. O primeiro é o que chamou de “consumerismo”, ironicamente estimulado pelo bem-estar social atingido no período pós-Segunda Guerra Mundial. “A mensagem, no consumerismo, é ‘compre, consuma, jogue fora’. Mas essa conduta é incompatível com a finitude dos recursos naturais”, comentou. O segundo é encontrar caminhos para melhorar as condições sociais, já que essa melhora ajuda a proteger o ambiente. “No Brasil, um bom exemplo é a ocupação de áreas de mananciais, já que as pessoas não têm como morar em lugares melhores”.
Do ponto de vista do pilar da economia, Souza ressaltou o contexto de excesso de liquidez no mundo, dinheiro que num ambiente de juros negativos fica perambulando atrás de retorno. “É um desequilíbrio que vem pelo menos desde a crise de 2008, e que acabou gerando ainda mais concentração de renda nos últimos anos. A economia se vê diante do dilema de como crescer distribuindo melhor o capital financeiro, melhorando as condições de vida e permitindo a preservação do ambiente. Essa é uma das interconexões dos três pilares”, afirmou Souza.
Durante a transmissão, o sócio-fundador da Mesa Corporate Governance, Herbert Steinberg, indagou Souza sobre a participação de importantes atores nesse cenário complexo, Estados Unidos e China, considerando em seu escopo a presença de Joe Biden.  “A contenda entre os dois países é mais que uma guerra comercial, é a ponta do iceberg de uma disputa pelo lugar de superpotência mais poderosa do mundo. Quanto a Joe Biden, a expectativa é positiva dadas a experiência de vida do democrata e a excelente qualidade da equipe que vem formando”, assinalou o chairman. Souza destacou ainda que Biden se mostra disposto a recobrar o multilateralismo e o diálogo internacional, em sua opinião pontos essenciais para o mundo enfrentar os desafios da próxima década.
Os ajustes no pilar da desigualdade podem ser beneficiados, afirmou Souza, pela disseminação dos fatores ESG (ambientais, sociais e de governança). “O ESG tem condições de provocar mudanças nos três capitais (Natural, Financeiro e Humano), embora eu veja o setor público ainda muito atrasado nesse processo”, avaliou, lembrando que o setor privado está bem avançado nessa agenda. Para melhorar a distribuição do capital financeiro, considerou Souza, boas ações seriam a criação de instrumentos de poupança “blindados” contra especulações (de forma a garantir retornos de longo prazo para os investidores, algo bem diferente dos produtos sem lastro criados antes da crise de 2008) e o estabelecimento de uma necessária equanimidade tributária (quem tem mais paga proporcionalmente mais).
O momento também é de uma reflexão sobre a democracia, na avaliação de Souza. “Precisamos falar sobre a obsolescência dos modelos democráticos. Embora a democracia ainda seja o melhor dos regimes, atualmente ela precisa de reformas”, pontuou. E essas reformas exigem diálogo e diversidade de opiniões, coisas bem diferentes da polarização que tanto tem prejudicado as sociedades mundo afora, concluiu.

Agência Blue Chip