quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Opinião: Efeitos econômicos da covid-19 na América do Sul

 * Por Jean Paraskevopoulos Neto

O surto de coronavírus representa uma das crises mais profundas pelas quais a humanidade passou ao longa da história e, certamente, a mais importante nos últimos 50 anos para a economia global. De fato, alguns analistas animaram-se a comparar esse processo com a Grande Depressão de 1930, embora os fatores desencadeantes da crise atual - a interrupção da atividade econômica e das cadeias de valor como resultado das medidas de isolamento - sejam radicalmente diferentes daqueles que forjaram a primeira grande crise financeira.
Nesse sentido, um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou que o impacto negativo no PIB mundial será próximo de 5% este ano, um indicador que está dois pontos percentuais abaixo da revisão das perspectivas de crescimento global realizada pela instituição no começo da pandemia, em abril (-3%), e mais de oito pontos abaixo daquela feita em outubro do ano passado, refletindo o grau de importância dos efeitos econômicos globais do surto. De fato, ainda que a entidade projete uma recuperação de cerca de 5,4% do PIB mundial para 2021, estima-se que o impacto da pandemia e a incerteza quanto à duração manterão uma tendência de crescimento abaixo dos níveis projetados antes da crise.
A interrupção da atividade econômica e o impacto nas cadeias de valor como resultado das medidas de distanciamento social que os países estão aplicando para mitigar ou reduzir a curva de contágio da covid-19 e, paralelamente, tornar os sistemas de saúde sustentáveis estão tendo efeitos devastadores no desempenho das economias e gerando perspectivas de crescimento desanimadoras para o final deste ano. Trata-se de uma situação que afeta, principalmente, os países pobres ou em desenvolvimento que apresentam uma situação geralmente mais delicada em comparação com os desenvolvidos, e nos quais a pandemia exacerba crises pré-existentes como a econômica, financeira, social e política. Embora as perdas associadas à emergência de saúde ou o choque negativo disto, em termos do impacto no PIB, sejam consideradas muito significativas para todas as nações do mundo, elas serão mais profundas e desiguais conforme a crise continuar, uma vez que, como geralmente ocorre nas guerras, não se sabe quando elas acabarão ou quão persistentes serão os efeitos no médio e longo prazos.
O surto de coronavírus, que começou na China em dezembro de 2019, cresceu de forma alarmante desde então, infectando até o início de outubro deste ano mais de 36 milhões de pessoas e ceifando mais de 1 milhão vidas em todo o mundo. Na América do Sul, o número de infectados já ultrapassou 9,3 milhões, com Brasil, México, Colômbia, Peru, e Argentina com o maior número de infectados.
Ao contrário de outras crises, uma pandemia tem a particularidade de que, conforme avança, os governos adotam medidas de distanciamento social que afetam diretamente a produtividade dos fatores aplicados à produção, principalmente, a mão de obra, interrompendo o desenvolvimento da atividade econômica em todos os países e gerando um choque de oferta. Ao mesmo tempo, há uma queda na demanda por insumos produtivos no âmbito local e internacional e uma contração na demanda de consumo final - em função do possível aumento nos níveis de desemprego, diminuição da renda média e mudança nos hábitos de compra dos consumidores - levando a um choque de demanda. Especificamente, é importante observar que a queda na demanda internacional por produtos básicos e o retrocesso que essa mudança gera nos preços têm um impacto específico na América Latina e em muitos mercados emergentes cujas economias dependem crucialmente da produção e exportação desses bens.
Finalmente, a incerteza sobre a duração da crise sanitária e os efeitos econômicos dela afetam os mercados de crédito internacional, impulsionando o fluxo de capitais em direção a ativos mais líquidos ou livres de risco (como os títulos emitidos pelos Estados Unidos, por exemplo), comprometendo a disponibilidade de recursos e aumentando os custos de financiamento, especialmente, para países endividados e que necessitam desses recursos. Nesse contexto, a implementação de políticas anticíclicas que visam a promover a atividade econômica começa a se tornar difícil sem que acabem afetando a saúde das pessoas. Dessa forma, os países estão presos a uma dinâmica de eventos que restringe a capacidade de resposta e limita sobremaneira a mitigação dos efeitos da crise.
No caso dos países da América Latina e, especialmente, da América do Sul, a experiência observada em outras regiões permitiu a elaboração de estratégias e medidas mais eficazes contra o surto da covid-19, ainda que não se tenha podido evitar o fechamento das fronteiras, o distanciamento social, as quarentenas compulsórias e a interrupção de grande parte da atividade econômica. Essas medidas, somadas à desaceleração da economia global, à contração dos preços internacionais de matérias-primas (combustíveis, alimentos e minerais), do turismo (cuja demanda diminui em função das medidas que imobilizam as pessoas) e ao maior custo para se financiar (devido à grande incerteza), estão punindo severamente os países da região e deteriorando o desempenho futuro projetado, deixando no processo um rastro de números de crescimento negativo para todo o continente sul-americano até o final deste ano e apenas um vislumbre de recuperação para o próximo.
Particularmente, resta claro que a queda na demanda global afetará a América do Sul no que tange às exportações. Os países da região são, em maior ou menor grau, dependentes da exportação de matérias-primas e produtos básicos. Com a queda observada na atividade industrial na maioria dos países do mundo, a demanda internacional por commodities e os preços destas, que já vinham sofrendo em função da crise comercial entre os Estados Unidos e a China, registraram um retrocesso que poderia ser comparado, em termos de magnitude, ao aumento observado durante o superciclo de crescimento que esses produtos viveram entre 2002 e 2012 e que teve o auge em 2008. De fato, de acordo com cálculos realizados pelo FMI no início da atual crise, entre 2 de janeiro e 4 de abril deste ano, os índices de preços de minerais metálicos e do petróleo caíram, respectivamente, 16% e 55% em média.
Da mesma forma, as medidas de contenção aplicadas em todo o mundo e as restrições de financiamento devem operar em detrimento da atividade econômica da região, a qual deve ser adicionada a redução a zero na conta de turismo e os problemas que surgem para os países endividados, que devem enfrentar os efeitos da pandemia simultaneamente com crises econômicas e financeiras preexistentes, como a Argentina, por exemplo. Em termos gerais, espera-se que tanto a América Latina quanto a América do Sul registrem uma queda significativa no PIB agregado, no final deste ano, enquanto, que para 2021 há expectativas de uma recuperação em torno de 3% a 4%.

* Jean Paraskevopoulos Neto é sócio líder de mercados e clientes da KPMG no Brasil e na América do Sul.

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